Assim, a comicidade romana resulta de uma tensão dialética: o enredo (argumentum) tenta seguir a lógica causal grega, mas é constantemente interrompido e sabotado pela lazzi (a piada física), pelo trocadilho obsceno e pelo número musical. Essa tensão revela que, sob a toga grega do enredo, pulsava o corpo indisciplinado do riso itálico. A palliata é, em última análise, um campo de batalha cultural em que duas concepções do cômico, e duas concepções da função social do teatro, negociam uma coexistência instável.
c. Plauto: A Soberania do Servus Callidus e a Ópera Bufa
A obra de Tito Mácio Plauto (254–184 a.C.) constitui o momento em que a fabula palliata atinge a sua máxima potência teatral, emancipando-se da deferência servil aos modelos gregos. Se a estrutura dos enredos remete à Comédia Nova, a execução cênica é, segundo Berthold (2001), uma reviravolta anti-realista que subordina a verossimilhança psicológica à eficácia do espetáculo. Plauto, cujo próprio nome (Maccius, derivado de Maccus, o bufão da Atelana) denuncia uma origem ligada à práxis do ator, opera uma transformação radical na economia da peça: ele sacrifica a coerência ética de Menandro em favor da vis comica (força cômica) imediata, caracterizada pelo vigor verbal e pela exploração da fisicalidade.
Essa escolha estética tem implicações políticas profundas. Menandro construíra uma comédia de reconciliação, em que os conflitos se resolviam pelo reconhecimento mútuo e pela integração do desviante na ordem social. O senex irado acabava por aceitar o casamento do filho; o jovem imprudente amadurecia; o escravo era recompensado por sua lealdade. A comédia menandrina reafirmava, em última instância, a legitimidade da hierarquia social ao mostrar que ela podia acomodar os impulsos individuais sem se romper. Plauto subverte essa lógica. Em suas peças, a reconciliação final é frequentemente superficial ou irônica; o que permanece na memória do espectador não é a restauração da ordem, mas o espetáculo de sua subversão.
A marca distintiva dessa dramaturgia é a centralidade absoluta da figura do escravo astuto (servus callidus). Rosa (2017) argumenta que, em Plauto, a escravidão deixa de ser apenas uma condição social para tornar-se uma função metateatral. O escravo plautino, como o Palestrião de O Soldado Fanfarrão ou o Pseudolus da peça homônima, não é um mero auxiliar da intriga, mas o architectus doli (arquiteto do engano). É ele quem manipula a linguagem, inventa estratagemas e rege a ação das personagens livres, operando uma inversão carnavalesca da hierarquia romana.
Essa inversão é politicamente explosiva. Na vida real romana, o escravo era juridicamente uma "coisa" (res), desprovido de personalidade legal e sujeito ao poder absoluto do senhor. No palco de Plauto, contudo, ele se torna o "rei do momento", detentor da inteligência (calliditas) que falta aos seus senhores estúpidos ou apaixonados. Pseudolus não apenas engana o leno (cafetão) para libertar a amada do jovem Calidoro; ele comanda a ação como um general comanda um exército, chegando a comparar-se explicitamente a um estrategista militar. Palestrião, em O Soldado Fanfarrão, orquestra uma trama complexa que humilha o miles gloriosus, reduzindo-o de conquistador arrogante a vítima patética.
A supremacia do escravo funciona como uma válvula de escape social. Numa sociedade escravocrata massiva, em que o medo de revoltas servis (como as Guerras Servís da Sicília) era latente, a comédia oferece uma "domesticação do medo" pelo riso. O servus callidus representa a inteligência que o sistema nega ao escravo, mas que a realidade cotidiana muitas vezes comprovava ser necessária para a administração da domus e dos negócios do senhor. Ao rir do escravo astuto, a plateia romana (composta majoritariamente por homens livres pobres, libertos e escravos) vivenciava uma inversão de poder ficcional que dissipava tensões reais. A comédia permitia imaginar um mundo em que a inteligência vencia a força bruta da lei, sem que essa imaginação se traduzisse em ação revolucionária.
Além da tipologia, Plauto revoluciona a linguagem por meio da musicalidade. Correia (2007) destaca que, ao contrário de Menandro, que privilegiava o diálogo falado, Plauto transforma a comédia numa espécie de "ópera bufa". A peça plautina é estruturada sobre a alternância complexa entre diverbia (diálogos) e cantica (árias líricas cantadas e dançadas), exigindo do ator um virtuosismo vocal e corporal inédito. Essa dimensão operística é reforçada pela riqueza lexical: o latim de Plauto é uma língua exuberante, repleta de neologismos, jogos de palavras (puns), aliterações e obscenidades que capturam o acetum italicum (o espírito mordaz itálico).
A linguagem plautina é, ela própria, um instrumento de subversão. O escravo astuto não apenas age contra o senhor; ele fala melhor do que o senhor. Pseudolus domina a retórica; Palestrião manipula os registros linguísticos com virtuosismo. Essa superioridade verbal inverte a hierarquia cultural romana, em que a eloquência (eloquentia) era marca distintiva da elite senatorial. Ao atribuir ao escravo a mestria da palavra, Plauto questiona implicitamente a correlação entre status social e capacidade intelectual.
A ruptura frequente da "quarta parede" reforça essa dimensão política. Ao dirigir-se diretamente ao público para comentar a própria ação, o escravo plautino afasta-se da ilusão naturalista grega para afirmar o teatro como um jogo autoconsciente. Essa metateatralidade tem uma função específica: ela lembra constantemente ao espectador que o que ele assiste é uma ficção, uma suspensão temporária das regras sociais. O escravo pode reinar no palco precisamente porque o palco não é a vida real. Contudo, essa mesma consciência da ficcionalidade permite uma crítica mais ousada: sob o véu do "é só teatro", Plauto pode dizer verdades que seriam intoleráveis em qualquer outro contexto.
A obra plautina representa, assim, o ponto de máxima tensão entre a função conservadora e a função subversiva da comédia romana. Por um lado, a restauração final da ordem (o filho casa-se, o escravo é perdoado ou recompensado) reafirma que a hierarquia sobrevive aos ataques cênicos. Por outro lado, a intensidade do espetáculo de inversão, a alegria contagiante da vitória servil, deixa uma marca na imaginação coletiva que nenhuma reconciliação final pode apagar completamente. Plauto oferece à plebe romana o prazer de ver a autoridade humilhada, e esse prazer, mesmo ficcional, é politicamente significativo.
d. Terêncio: A Retórica do Purus Sermo e o Humanismo Cênico
A dramaturgia de Públio Terêncio Afro (185–159 a.C.) representa uma inflexão aristocrática na trajetória da comédia romana, operando o que a crítica moderna define como uma "helenização radical" do gosto latino. Enquanto Plauto buscava a adesão ruidosa da multidão por meio da farsa itálica, Terêncio, protegido pelo Círculo dos Cipiões (a elite intelectual filelena de Roma), dedicou-se à construção de uma palliata regida pela gravitas (seriedade) e pela elegância linguística (purus sermo). Como nota Berthold (2001), o teatro terenciano renuncia deliberadamente à "força cômica" (vis comica) imediata em favor de uma comédia estática (fabula stataria), que exige do espectador não a gargalhada visceral, mas a reflexão ética e o refinamento auditivo.
Essa escolha estética é inseparável de um projeto político. O Círculo dos Cipiões representava uma facção da aristocracia romana que via na cultura grega um instrumento de distinção social e de legitimação imperial. Ao patrocinar um teatro que exigia educação para ser apreciado, essa elite demarcava sua distância cultural da plebe que lotava as arquibancadas para assistir a Plauto. Terêncio torna-se, assim, o dramaturgo de uma classe que aspira a governar não apenas pelo poder militar, mas pela superioridade cultural. A comédia deixa de ser uma válvula de escape popular para tornar-se um marcador de status intelectual.
A inovação mais contundente de Terêncio, e a que lhe confere um estatuto singular na teoria literária antiga, reside na refuncionalização do prólogo. Conforme demonstram Rossi (2017) e Santos (2023), Terêncio rompe com a tradição expositiva de Menandro e Plauto. O prólogo deixa de servir para narrar o argumento da peça (argumentum) ou pedir a benevolência do público (captatio benevolentiae); ele é transformado em um espaço de crítica literária militante. Nos prólogos de Andria e Eunuchus, o dramaturgo utiliza a voz do ator para defender sua técnica de contaminatio (a fusão de duas peças gregas em uma latina) contra as acusações de plágio e inépcia lançadas pelo "velho poeta malévolo" (Luscius Lanuvinus).
Carlson (1995) sublinha que, pela primeira vez no Ocidente, o palco é usado para debater a própria feitura da arte. Essa metateatralidade polêmica pressupõe uma plateia culta, capaz de julgar não apenas a diversão, mas a legitimidade do processo criativo. O público implícito de Terêncio não é a massa dos Ludi, mas uma comunidade de conhecedores (docti) que compartilham referências literárias e podem avaliar a fidelidade ao modelo grego. A comédia torna-se, assim, um gênero para iniciados, e o prólogo funciona como um filtro que separa os espectadores qualificados dos demais.
No plano da representação, essa postura teórica traduz-se na rejeição das "farsas agitadas" (motoria). Silva (2009) analisa como Terêncio condena explicitamente os recursos fáceis do teatro popular, como o servus currens (o escravo que corre esbaforido para anunciar novidades), considerando-os indignos de sua arte sóbria. A ação torna-se psicológica; o conflito desloca-se da praça para a consciência. O ritmo desacelera, as tiradas espetaculares cedem lugar a diálogos densos, e o espectador é convidado a acompanhar não peripécias externas, mas a evolução interior dos personagens.
A figura do pai (senex) exemplifica essa transformação. Em Plauto, o senex era frequentemente um velho libidinoso ou avarento, herdeiro direto do Pappus atelano, cuja função dramática era ser enganado e humilhado. Em Terêncio, ele se torna um agente de preocupação pedagógica. Silva (2024) argumenta que Terêncio humaniza a autoridade patriarcal, substituindo a coerção pela persuasão. O pai terenciano não é um tirano grotesco, mas um homem dividido entre o dever e o afeto, que busca educar o filho sem destruir a relação. Essa representação reflete o ideal educativo da paideia grega adaptada aos valores romanos de dever (officium) e piedade (pietas).
A diferença política entre os dois modelos de senex é significativa. O pai plautino, ao ser humilhado, oferece à plebe o prazer da vingança simbólica contra a autoridade patriarcal. O pai terenciano, ao ser humanizado, convida a uma identificação empática que reforça, em vez de subverter, a legitimidade da hierarquia familiar. A comédia de Terêncio não oferece válvulas de escape; ela oferece modelos de comportamento. O espectador não ri do pai, mas aprende com ele como exercer a autoridade de forma civilizada.
Essa busca por verossimilhança e profundidade culmina no conceito de Humanitas, sintetizado na célebre sentença de Heautontimorumenos: "Homo sum, humani nihil a me alienum puto" ("Sou humano, nada do que é humano me é estranho"). A frase, pronunciada por um personagem que justifica sua curiosidade pelos assuntos do vizinho, transcende seu contexto cômico para formular um princípio ético universal. A humanitas terenciana afirma a comunidade essencial de todos os seres humanos, independentemente de seu status social. Escravos, mulheres, estrangeiros: todos participam de uma mesma natureza que os torna dignos de consideração moral.
Essa ética tem implicações políticas ambíguas. Por um lado, a humanitas pode ser lida como uma crítica implícita à brutalidade das relações escravistas e patriarcais romanas. Ao afirmar que "nada do que é humano me é estranho", Terêncio sugere que o sofrimento do escravo ou da mulher não deve ser indiferente ao cidadão livre. Por outro lado, a humanitas permanece uma ética de elite, formulada por e para aristocratas que podem se dar ao luxo da compaixão filosófica sem questionar as estruturas materiais da opressão. A comédia terenciana educa os sentimentos, mas não incita à ação transformadora.
A comédia terenciana, ao limpar a linguagem das obscenidades plautinas e ao focar na complexidade das relações afetivas e na dor do mal-entendido, transforma o teatro num veículo de civilização. Se Plauto oferece a catarse pelo riso anárquico, Terêncio oferece a educação sentimental pela empatia. O espectador de Plauto sai do teatro aliviado; o espectador de Terêncio sai do teatro (idealmente) melhorado. Essa diferença de função marca a bifurcação da comédia romana em duas tradições: uma popular, espetacular e subversiva; outra aristocrática, literária e pedagógica.
O legado de Terêncio seria imenso. Sua linguagem elegante tornou-se modelo de latinidade nas escolas medievais; sua construção de enredos influenciou a comédia renascentista; sua ética da humanitas alimentou o humanismo moderno. Contudo, esse sucesso póstumo não deve obscurecer seu relativo fracasso junto ao público contemporâneo. As repetidas queixas nos prólogos sobre a deserção da plateia revelam que a "alta comédia" terenciana lutava para competir com os espetáculos mais viscerais que a plebe romana preferia. A tensão entre arte e entretenimento, entre educação e diversão, entre elite e massa, atravessa toda a obra de Terêncio e permanece como um problema não resolvido da comédia ocidental, de Molière ao drama burguês moderno.
2. O Vínculo Político-Social em Roma
A inserção do fenômeno cômico na Urbs romana opera-se sob pressupostos institucionais radicalmente distintos daqueles vigentes na democracia ateniense. Se em Atenas o teatro era uma liturgia cívica em que o cidadão debatia os destinos do Estado, em Roma ele nasce subordinado à lógica estatal dos Ludi (jogos públicos), inserindo-se na estratégia de governabilidade que Juvenal, séculos depois, sintetizaria na fórmula panem et circenses. Berthold (2001, p. 143) adverte que o teatro romano não gozava da autonomia intelectual grega; era um divertimento financiado por magistrados (edis) com o objetivo explícito de apaziguar as massas e exibir o poder da República. Consequentemente, o vínculo entre comédia e política deixa de ser de participação para tornar-se de compensação.
Essa diferença estrutural exige uma revisão das categorias analíticas. Na Atenas democrática, a comédia era política porque intervinha diretamente no debate público: Aristófanes atacava generais, ridicularizava decretos, propunha alternativas. O comediógrafo ateniense disputava com o demagogo a função de didaskalos (educador) da cidade. Em Roma, essa intervenção direta era juridicamente impossível. O ambiente político romano, dominado por uma aristocracia ciosa de sua dignitas e auctoritas, impôs um "teto de vidro" à criação dramatúrgica: a interdição absoluta do ataque pessoal a cidadãos romanos vivos.
O caso de Gneu Névio serve como advertência fundadora. Poeta que ousou satirizar a poderosa família dos Metelos no final do século III a.C., Névio sofreu o cárcere e, posteriormente, o exílio. Berthold (2001) observa que esse episódio pairava como um espectro sobre toda a produção cômica subsequente. A lição era clara: a parrhêsía (franqueza) que constituía o núcleo ético da comédia ateniense era, em Roma, um crime. Enquanto Aristófanes podia arrastar Cléon para a lama do palco e sair impune (ainda que processado), o comediógrafo latino operava sob a vigilância de uma censura implacável, pronta a punir qualquer afronta à honra das grandes famílias.
Essa interdição não significou, contudo, a despolitização da comédia romana. Ela provocou um deslocamento do alvo. Impedida de atacar o Senado ou os Cônsules, a palliata voltou sua artilharia para as microestruturas de poder: a família patriarcal e a instituição da escravidão. Rosa (2017) e Pinto (2013) argumentam que a política manifesta-se, na comédia romana, como tensão doméstica. O palco torna-se o único espaço em que a tirania do paterfamilias, detentor do patria potestas (poder que lhe conferia direito de vida e morte sobre filhos e escravos), pode ser impunemente ridicularizada.
A estrutura social romana fornecia material abundante para essa sátira doméstica. A sociedade republicana organizava-se em torno da autoridade absoluta do chefe de família, que controlava não apenas escravos, mas também filhos adultos, noras e netos enquanto vivesse. Essa concentração de poder gerava tensões inevitáveis: filhos que desejavam autonomia, escravos que ressentiam a sujeição, mulheres que buscavam espaços de agência. A comédia explorou sistematicamente essas fissuras, oferecendo representações em que os subordinados triunfavam, ainda que temporariamente, sobre a autoridade patriarcal.
O mecanismo central dessa dinâmica é a inversão carnavalesca, análoga às festividades da Saturnália. Durante essa festa anual, os papéis sociais se invertiam ritualmente: escravos eram servidos por senhores, liberdades verbais eram toleradas, a hierarquia era suspensa por alguns dias. A comédia romana funcionava como uma Saturnália permanente e controlada. Ao encenar o triunfo do filho pródigo sobre o pai avarento, ou do escravo esperto sobre o senhor estúpido, ela oferecia à plebe romana uma vingança simbólica que aliviava as pressões de uma sociedade rigidamente hierarquizada sem ameaçar a ordem estabelecida.
Berthold (2001) nota que essa subversão é estruturalmente conservadora. Ao final do espetáculo, a ordem é invariavelmente restaurada: o filho casa-se e assume seu lugar na estrutura familiar; o escravo volta à sua condição ou obtém a liberdade como recompensa por seus serviços. A comédia permite que a pressão social seja liberada na ficção para não explodir na realidade. Ela funciona como uma válvula de escape que, ao oferecer satisfação imaginária às frustrações reais, contribui para a manutenção do status quo. O riso romano é, em última análise, um riso disciplinado, que subverte para conservar.
a. Adaptação e Crítica Disfarçada: A Graecitas como Máscara de Segurança
A transplantação da Comédia Nova para o solo romano não ocorreu num vácuo de poder, mas sob a égide de um sistema jurídico e aristocrático profundamente hostil à liberdade de expressão irrestrita que caracterizara a democracia ateniense. O destino de Gneu Névio estabeleceu o limite intransponível: a proibição tácita, mas implacável, do escárnio direto contra figuras públicas ou contra a dignitas das magistraturas romanas. Nesse cenário de censura latente, a fabula palliata desenvolveu-se como uma arte da esquiva e da duplicidade.
A solução encontrada pelos comediógrafos foi engenhosa: manter a ambientação grega como dispositivo de segurança. O uso do pallium (manto grego), a localização da ação em Atenas ou em outras cidades helênicas, a atribuição de nomes gregos aos personagens: todos esses elementos funcionavam como um "álibi geográfico". Ao situar a trama numa Grécia imaginária e moralmente decadente, os dramaturgos podiam representar a quebra de tabus sociais (o filho que engana o pai, o escravo que zomba do senhor, a dissolução dos costumes) atribuindo tais vícios à "leviandade grega" (levitas graeca). A gravitas moral de Roma permanecia, superficialmente, intocada.
Essa distância, contudo, era ilusória. Correia (2007) argumenta que o processo de adaptação, tecnicamente denominado vortere (verter/transformar), não era uma tradução literal, mas uma apropriação cultural agressiva. Plauto, em particular, injetava na trama grega referências tópicas romanas, criando um efeito de anacronismo deliberado que estabelecia cumplicidade com a plateia. Personagens com nomes gregos invocavam leis romanas, citavam deuses itálicos e referiam-se a lugares de Roma (como o Velabro ou o Capitólio) em suas piadas. Essa sobreposição produzia uma ambiguidade política fértil: o espectador ria do "outro" (o grego vicioso), mas reconhecia, nas entrelinhas da farsa, a caricatura de seus próprios vizinhos e das tensões que permeavam a Urbs.
Rosa (2017) observa que essa estratégia de "crítica disfarçada" era particularmente eficaz porque operava por identificação negativa. O público romano podia sentir-se superior aos gregos dissolutos encenados no palco, ao mesmo tempo em que reconhecia, com prazer culposo, os vícios domésticos que a ficção "estrangeira" espelhava. O pai avarento da comédia era grego, mas sua avareza era universal; o escravo astuto enganava um senhor ateniense, mas a astúcia servil era a mesma que operava nas casas romanas. A máscara grega permitia dizer verdades locais sob a aparência de representar costumes alheios.
Essa duplicidade tinha uma função política precisa. Ao canalizar a crítica social para um alvo deslocado (a Grécia fictícia), a palliata evitava o confronto direto com as estruturas de poder romanas, tornando-se tolerável para a aristocracia censora. Ao mesmo tempo, ao tornar esse alvo suficientemente transparente para que o público reconhecesse as realidades locais, ela satisfazia a demanda popular por representações críticas da hierarquia social. A comédia ocupava, assim, um espaço de ambiguidade calculada: subversiva o bastante para atrair a plebe, inofensiva o bastante para ser tolerada pelo Senado.
O mecanismo pode ser comparado ao funcionamento da alegoria política em regimes autoritários modernos. Assim como escritores sob censura aprenderam a criticar o presente por meio de narrativas ambientadas no passado ou em países fictícios, os comediógrafos romanos desenvolveram uma linguagem de alusão e deslocamento que permitia a expressão de tensões sociais sem incorrer em sanções legais. A diferença é que, no caso romano, esse deslocamento era uma convenção de gênero estabelecida e reconhecida, não uma estratégia individual de resistência.
A eficácia política dessa convenção dependia, paradoxalmente, de sua transparência parcial. Se o disfarce grego fosse completo, a comédia perderia sua relevância local e seu apelo popular. Se fosse inexistente, ela se tornaria intolerável para a censura. O gênio da palliata reside no equilíbrio instável entre esses dois polos: grega o suficiente para ser segura, romana o suficiente para ser significativa. Esse equilíbrio exigia do comediógrafo uma maestria na arte da alusão, e do público uma competência na arte da decodificação.
Portanto, a adaptação na palliata constitui um ato político de resistência oblíqua. Ao traduzir Menandro, Plauto não estava apenas importando literatura; estava construindo um espaço de Saturnália permanente. Sob a máscara do grego devasso, o comediógrafo dissecava a hipocrisia do paterfamilias romano e a ganância da nova classe mercantil, subvertendo, por meio do riso, a rigidez do mos maiorum (os costumes dos ancestrais) que a elite censora pretendia preservar intocada. A Graecitas não era um ornamento estético, mas uma tecnologia política de sobrevivência criativa.
b. Panem et Circenses: A Institucionalização do Lazer e a Competição pelo Olhar
A inserção da atividade teatral na vida pública romana difere ontologicamente do modelo grego. Se em Atenas o teatro era um ritual cívico-religioso de questionamento, em Roma ele consolida-se como uma engrenagem fundamental da política de Estado. A expressão panem et circenses (pão e circo), cunhada pelo satirista Juvenal no século II d.C., descreve retrospectivamente uma lógica que já operava na República: a oferta de alimentos e espetáculos como instrumentos de controle social. O teatro não escapa a essa lógica; ele é parte constitutiva dela.
Berthold (2001, p. 143) esclarece que as representações cênicas (ludi scaenici) não possuíam autonomia institucional. Elas eram apenas um segmento dos grandes festivais oficiais (Ludi Romani, Ludi Megalenses, Ludi Apollinares), financiados e organizados pelos magistrados (edis curuis) como instrumento de autopromoção eleitoral e pacificação social. O magistrado que oferecia jogos espetaculares ganhava prestígio popular e aumentava suas chances nas eleições seguintes. O espetáculo era, assim, um investimento político com retorno calculável.
Nesse contexto, o teatro deixa de ser uma "escola de cidadania" para tornar-se um munus (presente/obrigação) oferecido pela elite governante à plebe ociosa. A política manifesta-se não no conteúdo revolucionário da peça, mas no ato de sua oferta. O espetáculo funciona como um narcótico social, desenhado para ocupar o tempo livre (otium) de uma população urbana densa e potencialmente turbulenta, desviando sua atenção das carências materiais e da exclusão das decisões senatoriais. A comédia, nesse sistema, cumpre uma função de entretenimento, não de intervenção.
Essa instrumentalização do teatro teve consequências estéticas profundas. O sucesso de uma peça não era medido pela sua profundidade filosófica ou pela sua coragem política, mas pela sua capacidade de capturar e manter a atenção de uma multidão heterogênea e ruidosa. O comediógrafo não disputava com o demagogo a função de educador da cidade, como em Atenas; ele competia com funâmbulos, pugilistas e corridas de cavalos pela atenção de um público soberano em seu tédio.
Santos (2023), ao analisar os prólogos de Terêncio, destaca um testemunho dramático dessa competição. Na peça Hecyra (A Sogra), o dramaturgo relata, com amargura, como suas duas primeiras tentativas de encenação fracassaram não por defeito da obra, mas porque o público abandonou o teatro correndo para ver um equilibrista e uma luta de pugilistas que aconteciam nas proximidades. O próprio texto da comédia registra sua precariedade institucional: a arte literária era apenas uma opção entre outras no cardápio de entretenimentos oferecidos nos Ludi.
Este episódio ilustra a fragilidade da dramaturgia literária frente à demanda por sensacionalismo visual (circenses). Para sobreviver nesse ecossistema, a comédia romana, especialmente a plautina, viu-se obrigada a incorporar a espetacularidade como condição de existência. A música, a dança, a farsa física, a interação direta com a plateia, os números de virtuosismo vocal: todos esses recursos eram armas na luta pela atenção de um espectador que podia, a qualquer momento, levantar-se e ir embora.
A consequência política dessa dinâmica é significativa. Uma comédia que precisa competir com o circo não pode se dar ao luxo de ser excessivamente sutil ou reflexiva. Ela precisa oferecer estímulos intensos e imediatos. Isso favorece a farsa sobre o drama de caracteres, a piada física sobre o diálogo filosófico, a subversão espetacular sobre a crítica nuançada. A própria estrutura do mercado de entretenimento romano empurrava a comédia na direção do popular e do visceral, afastando-a do modelo menandrina de reflexão ética.
Terêncio representa a tentativa de resistir a essa pressão, de criar uma comédia literária que não se curvasse às exigências do espetáculo. Seu relativo fracasso comercial, atestado pelas queixas nos prólogos, demonstra os limites dessa resistência. A plebe romana votava com os pés, e seu voto era claro: ela preferia Plauto a Terêncio, o circo ao teatro, a sensação à reflexão. A institucionalização do lazer como instrumento de controle social produziu, assim, uma estética do imediatismo que marcaria profundamente a tradição cômica ocidental.
c. Personagens Sociais e Inversão Cômica: A Vingança Simbólica contra o Paterfamilias
A eficácia catártica da fabula palliata junto às multidões romanas reside na sua capacidade de operar uma "vingança simbólica" contra as estruturas de opressão que regiam a vida privada na Urbs. A sociedade romana estruturava-se sobre a autoridade absoluta do paterfamilias, detentor legal do patria potestas, um poder coercitivo que lhe conferia o direito de vida e morte (vitae necisque potestas) sobre filhos e escravos, além do controle econômico total sobre o patrimônio familiar. Pinto (2013) argumenta que, num cotidiano marcado por essa severidade hierárquica e pela exigência de gravitas (seriedade) e pietas (dever filial), o teatro funcionava como uma zona de exceção temporária, um "mundo às avessas" (mundus inversus) em que a autoridade podia ser impunemente ridicularizada.
Para compreender a potência dessa inversão, é necessário dimensionar o peso da autoridade patriarcal na vida romana. O paterfamilias não era apenas o chefe doméstico; ele era uma instituição jurídica. Enquanto vivesse, seus filhos adultos, mesmo casados e com filhos próprios, permaneciam juridicamente sob sua tutela. Ele controlava todo o patrimônio familiar; os filhos não podiam possuir bens em seu próprio nome. Ele decidia sobre casamentos, carreiras, residências. Em casos extremos, ele podia vender filhos como escravos ou condená-los à morte. Embora esses poderes extremos fossem raramente exercidos na prática republicana, sua existência legal conferia ao pai uma autoridade simbólica esmagadora.
O mecanismo central da comédia é a inversão carnavalesca dessa hierarquia, análoga às festividades da Saturnália. No palco de Plauto, o senex (velho/pai), pilar da ordem social, é sistematicamente destituído de sua dignidade. Correia (2007) analisa, por meio da peça O Mercador (Mercator), como o comediógrafo explora o conflito de gerações transformando o pai num rival do próprio filho na disputa por uma amante. Ao retratar o paterfamilias como um velho libidinoso, avarento ou estúpido, a comédia despe-o de sua autoridade moral, reduzindo-o à condição de joguete nas mãos de seus subordinados.
Essa degradação cômica oferecia à plateia um prazer específico e politicamente carregado. O público dos Ludi, composto majoritariamente por homens livres pobres, libertos e escravos, vivia sob o peso cotidiano de hierarquias opressivas. Ver a figura do opressor humilhada pela sua própria inépcia ou vício proporcionava uma satisfação vicária, uma experiência de poder imaginário que a vida real negava. O riso da comédia romana não era inocente; era um riso de vingança, ainda que simbólica.
Rosa (2017) aprofunda essa leitura ao situar a vingança na agência do escravo. A figura do servus callidus (escravo astuto) não é apenas um recurso de enredo, mas a encarnação da inteligência que subverte a força bruta da lei. Quando o escravo engana o senhor para favorecer o jovem apaixonado (adulescens), ele está, na prática dramática, restaurando uma justiça "natural" (o direito ao amor e ao prazer) contra a justiça "legal" (a autoridade patriarcal e a avareza). O teatro torna-se um tribunal popular em que a plebe julga e condena, por meio do riso, a tirania doméstica que a realidade romana sancionava.
A política dessa inversão é ambígua. Por um lado, ela oferece uma válvula de escape que pode contribuir para a estabilidade social. Ao permitir que as tensões sejam descarregadas na ficção, a comédia reduz a pressão que poderia explodir em conflito real. O escravo que ri do senhor no teatro talvez seja menos propenso a desafiá-lo na vida real, precisamente porque obteve satisfação simbólica. Nesse sentido, a inversão cômica é conservadora: ela preserva a ordem ao oferecer uma ilusão temporária de sua suspensão.
Por outro lado, a inversão cômica possui um potencial subversivo que não pode ser inteiramente controlado. A imagem do escravo astuto vencendo o senhor estúpido, uma vez gravada na imaginação coletiva, torna-se um repertório disponível para pensar as relações de poder. A comédia demonstra, noite após noite, que a hierarquia não é natural, que a autoridade pode ser enganada, que a inteligência não respeita fronteiras de status. Essas demonstrações, mesmo ficcionais, alimentam uma consciência crítica que pode, em circunstâncias propícias, traduzir-se em ação.
Berthold (2001) nota que a subversão cômica era tolerada precisamente porque era contida. Ao final da peça, a ordem é restaurada: o filho casa-se e assume seu lugar na estrutura familiar; o escravo permanece escravo, muitas vezes "comprando" sua impunidade ou sua liberdade (manumissio) com o sucesso do estratagema. Essa restauração final reafirma que a inversão foi apenas um parêntese, um jogo permitido dentro de limites bem definidos. O escravo vence a batalha cênica, mas não a guerra social. Em Roma, a inteligência é a única arma dos despossuídos contra a tirania da tradição, mas é uma arma que só pode ser brandida no palco.
A função política da comédia romana revela-se, assim, em sua duplicidade constitutiva. Ela é, simultaneamente, uma válvula de escape que estabiliza a ordem e uma escola de imaginação subversiva que a questiona. Ela oferece vingança simbólica ao oprimido e lhe ensina, no mesmo gesto, que sua vingança só pode ser simbólica. Ela humaniza o escravo ao atribuir-lhe inteligência superior, mas o devolve à escravidão ao final da peça. Essa ambiguidade não é uma falha do gênero; é sua condição de possibilidade. Uma comédia que fosse apenas conservadora não atrairia a plebe; uma comédia que fosse abertamente revolucionária não seria tolerada pela aristocracia. A palliata sobrevive no espaço estreito entre esses dois polos, oferecendo a cada público aquilo que ele deseja ver.
d. O Teatro dos Tipos: O Servus Callidus e a Dialética do Poder
A arquitetura dramática da palliata assenta-se sobre uma tipologia rígida de caracteres que, longe de serem meros clichês estéticos, funcionam como ideogramas sociais das tensões que permeavam a República. Diferentemente da tragédia, que individualiza o herói no sofrimento, a comédia romana coletiviza o vício por meio do tipo fixo. Cada máscara encarna não um indivíduo, mas uma posição na estrutura social e um conjunto de comportamentos previsíveis associados a essa posição. Entre essas máscaras, a relação antagônica entre o escravo astuto (servus callidus) e o velho (senex) constitui o eixo nevrálgico em que a política romana é dissecada e subvertida.
Rosa (2017) demonstra que a proeminência hiperbólica do escravo em Plauto é um fenômeno singular, que particulariza o gênero em Roma frente ao seu modelo grego. Enquanto em Menandro o escravo auxiliava a intriga, em Plauto ele se torna o architectus doli (arquiteto do engano) e o imperator da farsa. Personagens como Pseudolus, Tranio ou Palestrião assumem uma soberania intelectual absoluta, regendo os destinos dos cidadãos livres como um general rege seu exército. Essa centralidade não é fortuita; ela responde a uma necessidade política específica do contexto romano.
Roma era uma sociedade escravocrata em escala massiva. No final da República, estima-se que escravos constituíam entre um quarto e um terço da população da Península Itálica. Essa massa servil era fonte de ansiedade permanente para a classe proprietária. As Guerras Servís da Sicília (135-132 a.C. e 104-100 a.C.) e, posteriormente, a revolta de Espártaco (73-71 a.C.) demonstraram que o medo de insurreições não era paranoia, mas avaliação realista de um risco estrutural. Nesse contexto, a figura do escravo astuto no palco cumpre uma função complexa de "domesticação do medo".
O servus callidus representa a inteligência que o sistema oficial nega ao escravo, mas que a experiência cotidiana frequentemente comprovava. Escravos administravam casas, negócios, propriedades rurais. Escravos letrados serviam como secretários, tutores, contadores. A ficção jurídica que os reduzia a "coisas" (res) era desmentida diariamente pela realidade de sua agência e capacidade. A comédia reconhece essa realidade ao atribuir ao escravo a maestria intelectual. Contudo, ao fazê-lo no registro do riso e da ficção assumida, ela neutraliza a ameaça que esse reconhecimento poderia representar.
O escravo plautino vence, mas vence no palco. Sua vitória é espetacular, cômica, delimitada pelo tempo da representação. Quando as luzes se apagam, a hierarquia permanece intacta. A comédia permite que senhores e escravos riam juntos da inversão, compartilhando um prazer que, paradoxalmente, reforça a distância entre eles. O senhor ri porque sabe que a inversão é fictícia; o escravo ri porque, ao menos por algumas horas, pode imaginar-se vencedor. Ambos saem do teatro satisfeitos, e a ordem social segue seu curso.
Em contrapartida, o senex (velho/pai) encarna a autoridade institucional a ser derrubada. Silva (2024), ao contrastar a comédia latina com a grega, observa que o senex plautino é frequentemente destituído da gravitas (dignidade) e da pietas (dever) que definiam o paterfamilias ideal. Ele aparece polarizado em duas variantes grotescas. A primeira é o senex iratus (o pai irado e avarento que bloqueia o amor do filho), cuja função dramática é representar o obstáculo a ser superado. A segunda é o senex amator (o velho libidinoso que compete com o filho por uma cortesã), cuja degradação moral o torna objeto de escárnio. Em ambos os casos, ele representa a força bruta da autoridade desprovida de legitimidade ética.
A política manifesta-se na inversão dessa hierarquia. O tratamento da relação entre servus e dominus opera como uma metáfora das relações de poder em geral. Quando o escravo engana o senhor, rouba-lhe dinheiro ou o expõe ao ridículo, o palco encena uma quebra momentânea do imperium doméstico. O público assiste à demonstração de que a autoridade é vulnerável, de que a inteligência pode derrotar a força, de que os subordinados possuem recursos que seus superiores desconhecem ou subestimam.
Essa demonstração tem efeitos pedagógicos ambíguos. Para o escravo na plateia, ela pode funcionar como consolação ou como inspiração. Consolação, se ele aceita que sua vitória só é possível na ficção. Inspiração, se ele começa a imaginar que a astúcia demonstrada no palco poderia ser aplicada na vida real. A comédia não controla a recepção de suas mensagens; ela oferece um repertório de imagens e possibilidades que cada espectador interpreta a partir de sua posição social e de suas necessidades psíquicas.
Berthold (2001) nota que a tolerância romana a essa subversão cênica dependia de mecanismos de contenção. O mais importante era a restauração final da ordem. O escravo astuto não escapa impune; ele obtém perdão ou liberdade como recompensa por seus serviços, o que significa que sua vitória é absorvida pelo sistema. A manumissio (alforria) concedida ao final da peça transforma a subversão em colaboração: o escravo venceu porque ajudou o jovem senhor a realizar seus desejos, e sua liberdade é o prêmio por essa ajuda. A inteligência servil, assim domesticada, torna-se um recurso a serviço da ordem patriarcal, não uma ameaça a ela.
A tipologia cômica revela, portanto, uma dialética do poder que opera em múltiplos níveis. No nível manifesto, a comédia celebra a vitória do fraco sobre o forte, do inteligente sobre o estúpido, do jovem sobre o velho. No nível latente, ela demonstra que essa vitória só é possível dentro de limites bem definidos, e que sua condição de possibilidade é a manutenção da estrutura que ela aparentemente subverte. O servus callidus é o herói da comédia romana, mas é um herói domesticado, cuja função última é entreter os senhores e consolar os escravos, permitindo que ambos retornem, após o espetáculo, aos seus lugares designados na hierarquia social.
e. Togata: O Realismo Nacional e os Limites da Representação Autóctone
O declínio da fabula palliata em meados do século II a.C. cede lugar a uma tentativa de emancipação cultural: a emergência da Fabula Togata. Se a palliata dependia do "álibi grego" para existir, vestindo seus atores com o pallium e situando a ação em Atenas, a togata propunha-se a vestir a cena com a toga nacional e a retratar o ambiente itálico. Berthold (2001) descreve esse movimento como uma reação à exaustão do helenismo erudito de Terêncio. O público romano, saturado de intrigas estrangeiras refinadas, clamava por um espelho em que pudesse reconhecer sua própria topografia, seus costumes e seus tipos sociais.
Essa demanda por "realismo nacional" não era apenas estética; ela refletia transformações políticas e culturais profundas. A conquista da Grécia (146 a.C.) e a expansão imperial haviam gerado debates intensos sobre a identidade romana. Uma facção conservadora, liderada por figuras como Catão, o Velho, denunciava a helenização dos costumes como corrupção moral e defendia o retorno ao mos maiorum (os costumes dos ancestrais). A togata pode ser lida, em parte, como uma resposta teatral a essa demanda por autenticidade cultural.
Contudo, essa "nacionalização" do teatro impôs um dilema político insolúvel. Ao trazer a ação para Roma, o dramaturgo perdia a imunidade que a ambientação grega lhe conferia. A censura aristocrática, que tolerava a subversão da hierarquia entre "gregos decadentes", jamais permitiria que um escravo romano humilhasse um paterfamilias romano no palco. A máscara grega era, como vimos, uma tecnologia de proteção; removê-la significava expor-se diretamente ao escrutínio de uma elite vigilante e punitiva.
Consequentemente, a togata sofreu uma drástica redução de potência satírica. A figura do servus callidus, motor da comédia plautina, foi neutralizada. Os escravos na togata tornaram-se personagens secundários ou obedientes, desprovidos da astúcia subversiva que os tornava protagonistas na palliata. A representação da inteligência servil superior à do senhor seria uma afronta intolerável à dignitas republicana quando encenada entre romanos. O gênero, ao abraçar o realismo, foi obrigado a renunciar à sua arma mais eficaz.
Para contornar essa interdição política, autores como Titínio e Afrânio voltaram-se para o realismo burguês e provincial, focando na vida das classes baixas e médias: o mundo das tabernas, dos artesãos, dos pequenos proprietários rurais. Por essa razão, o gênero foi frequentemente denominado fabula tabernaria. O foco deslocou-se da inversão vertical de poder (escravo versus senhor) para o conflito horizontal entre iguais (vizinhos, rivais comerciais, maridos e mulheres). A comédia tornou-se uma observação de costumes (mores), não uma subversão de hierarquias.
Uma inovação sociológica notável, apontada pela crítica historiográfica, foi a ampliação do papel feminino. Diferentemente da mulher ateniense, reclusa no gineceu e ausente da vida pública, a matrona romana gozava de prestígio social e autoridade doméstica consideráveis. Ela administrava a casa, controlava escravos, participava de eventos sociais, influenciava decisões familiares. Na togata, as mulheres ganharam voz ativa, participando das intrigas econômicas e familiares com uma liberdade que o modelo grego desconhecia. Essa representação refletia uma realidade social romana em que as mulheres, embora excluídas da política formal, exerciam poder significativo na esfera doméstica.
Apesar de seu apelo realista, a togata teve vida curta e não alcançou a complexidade literária de seus antecessores. A necessidade de respeitar a rigidez hierárquica romana acabou por drenar a vitalidade cômica do gênero. Sem poder explorar o conflito vertical que alimentava a energia subversiva da palliata, e limitada ao conflito horizontal entre personagens de status semelhante, a comédia nacional tornou-se insossa para uma plebe sedenta de satisfações vicárias mais intensas.
O fracasso da togata em sustentar-se como alta literatura revela os limites estruturais da comédia em sociedades autoritárias. O gênero cômico vive da tensão entre ordem e desordem, entre norma e transgressão. Quando a transgressão é interditada, a comédia perde seu combustível. A palliata sobrevivia porque sua transgressão era deslocada para um espaço fictício (a Grécia) e um tempo fictício (o presente eterno da comédia). A togata, ao reivindicar o aqui e o agora de Roma, expôs-se a restrições que a esvaziaram de potência crítica.
O vácuo deixado pela togata foi preenchido pelo ressurgimento avassalador das formas pré-literárias: a Atelana e o Mimo. O público romano, rejeitando o realismo moralizante da comédia nacional, preferiu o retorno à farsa improvisada, à obscenidade crua e à violência gráfica do Mimo. Essas formas, por serem consideradas "baixas" e não literárias, escapavam ao escrutínio que sufocava a togata. Elas podiam ser obscenas, violentas, subversivas, precisamente porque não reivindicavam o estatuto de arte séria.
Essa trajetória consumou a vitória definitiva do espetáculo (circenses) sobre a dramaturgia literária no final da República. A comédia romana, que em Plauto havia alcançado um equilíbrio precário entre arte e entretenimento, entre subversão e contenção, fragmentou-se em dois polos irreconciliáveis. De um lado, a tradição terenciana de alta comédia literária, destinada a uma elite restrita e preservada nas escolas como modelo de latinidade. De outro, o espetáculo popular de mimos e atelanas, destinado às massas e desprezado pelos letrados. Entre esses dois polos, o espaço para uma comédia simultaneamente artística e popular, crítica e acessível, fechou-se progressivamente, até reabrir-se, séculos depois, na commedia dell'arte italiana e nas comédias de Molière.
IV. Conclusão
A análise diacrônica das manifestações cômicas na Antiguidade Clássica, desde a virulência ritual da Archaia ateniense até a engenharia de adaptação da Palliata romana, revela que a história da comédia não é uma mera cronologia de formas estéticas. Ela constitui um sismógrafo preciso das mutações do "animal político" aristotélico. A relação entre arte e política, longe de ser um acessório temático, configura a própria ontologia do gênero: o riso antigo nasce como função de Estado, evolui como refúgio da cidadania e cristaliza-se como válvula de escape das tensões sociais.
No apogeu da democracia ateniense, a comédia aristofânica operou sob o signo da identidade entre o palco e a ágora. Como demonstraram Agostini (2008) e Duarte (1998), o teatro do século V a.C. exercia uma magistratura informal. A parrhêsía (franqueza) não era apenas um direito estético, mas um imperativo ritual. Ao romper a ilusão cênica na Parábase para interpelar diretamente a cidade, o coro cômico atuava como guardião da isonomia, castigando a hybris dos demagogos com a arma letal do ridículo. A comédia era, portanto, agonística e intervencionista; ela visava curar a pólis pela exposição grotesca de suas feridas.
Essa função terapêutica dependia de condições institucionais específicas. A democracia direta ateniense conferia a cada cidadão o direito e o dever de participar das decisões coletivas. O teatro, financiado pelo Estado e pelos cidadãos ricos, constituía uma extensão dessa participação. A plateia não era um agregado passivo de consumidores de entretenimento; era a Ekklêsía reunida sob outra forma, exercendo seu poder de julgar. O comediógrafo disputava com o demagogo a função de didaskalos (educador) da cidade, e sua vitória nos concursos dramáticos equivalia a uma sanção popular de sua mensagem política.
Com o ocaso da autonomia imperial de Atenas e a ascensão dos grandes impérios (macedônico e, posteriormente, romano), observa-se um fenômeno de sublimação e interiorização do político. A transição para a Comédia Nova de Menandro e, subsequentemente, para a adaptação latina, marca o recuo do cidadão para o oikos. A tese de Lape (2004) é fundamental para não confundirmos esse movimento com alienação ou escapismo. A política não desaparece; ela muda de endereço. Os valores democráticos de justiça, igualdade e liberdade de expressão, expulsos da grande esfera estatal pelas monarquias e oligarquias helenísticas, encontram abrigo na ética das relações privadas.
A comédia menandrina dramatiza essa interiorização ao fazer do casamento legítimo seu desfecho privilegiado. Cada peça que termina com a enguē (a fórmula de noivado entre cidadãos) constitui um ato performativo que projeta a continuidade do corpo cívico democrático. A reprodução de Atenas, para usar o título de Lape, ocorre não mais nas decisões da Assembleia, mas nas uniões matrimoniais que prometem o nascimento de novos cidadãos. O palco torna-se um laboratório de ética social, em que os valores democráticos são testados nas relações entre pais e filhos, senhores e escravos, homens e mulheres. A resolução dos conflitos domésticos serve como modelo para uma nova forma de coesão social baseada na persuasão e na philanthropia, não na força ou no decreto.
Em Roma, sob a vigilância de uma aristocracia censora, a comédia assume sua função mais complexa e paradoxal: a de estabilizadora da ordem por meio da desordem. Rosa (2017) e Pinto (2013) evidenciam que a fabula palliata, ao encenar a vitória do escravo sobre o senhor e do filho sobre o pai, operava uma "vingança simbólica" necessária à manutenção do equilíbrio social. O teatro funcionava como uma Saturnália controlada, uma válvula de escape psicossocial que permitia à plebe e aos escravizados vivenciarem uma liberdade ficcional, dissipando o potencial revolucionário real.
A política manifesta-se, no contexto romano, na tensão entre a gravitas exigida pela aristocracia e a licentia demandada pelo público popular. O comediógrafo latino opera num espaço estreito entre a censura e a diversão, entre o respeito às hierarquias e sua subversão cômica. O "álibi grego" da palliata resolve temporariamente essa tensão: ao situar a ação numa Atenas fictícia, Plauto pode ridicularizar o paterfamilias sem atacar diretamente a dignitas romana. Contudo, essa solução era instável. A tentativa de criar uma comédia autenticamente romana, a togata, fracassou precisamente porque a remoção da máscara grega expôs o gênero à censura direta, esvaziando-o de sua potência subversiva.
A trajetória da comédia antiga revela, assim, uma lei estrutural do gênero. O riso cômico vive da tensão entre norma e transgressão, entre ordem e desordem. Ele precisa de liberdade para atacar, mas também de limites que definam o alvo. Quando a liberdade é excessiva, a comédia dissolve-se em anarquia; quando os limites são excessivos, ela se ossifica em moralismo. A grandeza de Aristófanes reside em ter operado num momento em que a democracia ateniense oferecia o equilíbrio ideal: liberdade suficiente para atacar qualquer cidadão, limites suficientes (o bem comum da pólis) para que o ataque tivesse sentido político. Plauto encontrou outro equilíbrio, mais precário: a liberdade da ficção grega combinada com os limites da censura romana, produzindo uma comédia de inversão carnavalesca que subvertia para conservar.
Conclui-se, portanto, apoiando-se em Duvignaud (1972), que o comediante antigo é o agente que encarna as "sombras coletivas", revelando o que a sociedade oficial reprime. Se a tragédia ensina o homem a aceitar o destino, a comédia ensina-o a negociar com a contingência da vida em comum. De Aristófanes a Plauto, o gênero cômico provou que não existe sociedade sem a sua própria caricatura, e que a saúde de um corpo político pode ser medida pela liberdade que ele concede aos seus bobos, aos seus escravos e aos seus poetas para dizerem a verdade rindo (ridendo dicere verum).
A liberdade concedida ao riso funciona, em última análise, como um índice da vitalidade democrática. Na Atenas do século V a.C., essa liberdade era máxima: o comediógrafo podia nomear e atacar qualquer cidadão, incluindo os mais poderosos. Na Atenas helenística, ela se retraiu para o espaço doméstico, preservando os valores democráticos numa escala reduzida. Em Roma, ela se tornou uma concessão controlada, um parêntese ficcional que aliviava tensões sem ameaçar estruturas. Cada configuração produziu uma comédia distinta, adaptada às possibilidades e aos limites de seu contexto político.
Essa herança dialética, entre a crítica direta e a evasão lúdica, entre a intervenção e a compensação, constituirá o alicerce sobre o qual a modernidade erguerá os seus próprios tribunais cênicos. De Molière a Martins Pena, de Aristófanes a Ariano Suassuna, a comédia permanece como o gênero que testa os limites do dizível, que nomeia o inominável e que oferece ao público o prazer ambíguo de rir de si mesmo. A pergunta que a Antiguidade legou às gerações posteriores permanece atual: quanta verdade uma sociedade suporta ouvir de seus comediantes? A resposta a essa pergunta continua a definir, em cada época, a fronteira entre a democracia e seus simulacros.
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